Por que o Brasil entrou na rota global dos festivais de inovação

José Saad Neto | Colunista do UOL
13/05/2026

Só em 2026, o Brasil deve ultrapassar a marca de 35 festivais de inovação e economia criativa. Um recorde absoluto para eventos dessa natureza, com potencial para movimentar cerca de R$ 7 bilhões em impacto econômico direto. A maioria foi criada por aqui mesmo, como o Rio2C, o ProXXIma e o HackTown, mas alguns vieram de fora e ganharam versões adaptadas ao mercado brasileiro, caso do Web Summit Rio.

Esse sucesso pode ser explicado por alguns fatores: número crescente de brasileiros procurando conferências fora do País, demanda por conhecimento sobre tecnologia, principalmente inteligência artificial, além do potencial de geração de negócios a partir dos eventos. Vale colocar umalupa nesses movimentos.

O primeiro fator que justifica o recorde de festivais de inovação é que nós, brasileiros, estamos entre as maiores delegações que participam desses eventos mundo afora. No badalado SXSW, realizado há quase 40 anos em Austin, nos Estados Unidos, o Brasil é tão protagonista que os governos estaduais de São Paulo e de Minas Gerais resolveram investir em espaços proprietários para conectar empreendedores, investidores e servir como pontos de encontro da comunidade brasileira. Um sinal não apenas das oportunidades de negócios e de intercâmbio cultural geradas por esses fóruns, mas também de disputa por território político.O segundo fator segue um desafio de compreensão do mundo contemporâneo. Esses eventos funcionam como bússolas de conhecimento em contextos de mudanças tão aceleradas. Nos palcos e nos bastidores, as conferências elucidam conceitos, tecnologias e apresentam experiências para ajudar empresas, profissionais e jovens empreendedores a navegar melhor pela complexidade.

Por fim, e talvez o aspecto mais importante no caso do Brasil, acompanha uma transformação econômica concreta. A indústria criativa já representa 3,59% do PIB nacional, movimenta cerca de R$ 393 bilhões por ano e emprega maisde 1,26 milhão de pessoas formalmente, segundo o Mapeamento da Indústria Criativa 2025, da Firjan. O setor também cresceu acima da média da economia brasileira no último ano, puxada por áreas como publicidade, design, games e economia dos criadores, todas continuamente redesenhadas pela tecnologia.

Esse avanço ajuda a explicar por que cidades como São Paulo, Rio, Recife, Florianópolis, Belo Horizonte e Manaus disputam espaço no calendário de inovação. Mais do que eventos de conteúdo, esses festivais são plataformas de posicionamento econômico, atração de investimentos, turismo de negócios e construção de relevância internacional.

Um festival global para chamar de nosso
Essa é a proposta do ambicioso SP2B, que fará sua primeira edição em agosto, no Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Criado pelos mesmos donos do Rio2C, tem no time de curadores o estadunidense Hugh Forrest, uma das principais cabeças por trás do SXSW. Ele deixou o festival texano no ano passado e embarcou no projeto brasileiro liderado pelo empresário Rafael Lazarini, que pretende posicionar São Paulo como hub global de inovação. A credencial é arduamente disputada por cidades como Nova York, Londres, Tóquio, Xangai, Singapura e Estocolmo, apenas para citar algumas.

Para isso, o SP2B vai integrar experiências culturais com uma afiada agendaexperiências culturais com uma afiada agenda de conteúdo dividida em campos temáticos como negócios, trabalho, design, marketing e urbanismo. Anunciada como palestrante de abertura, a psicoterapeuta e autora belga Esther Perel se soma a nomes brasileiros como Renata Petrovic, head de inovação do Bradesco, e Carmela Borst, CEO da SoulCode, além do indiano Sankar Venkatraman, evangelista global do LinkedIn, equilibrando reflexões e desafios entre Norte e Sul Global.

Antes, no Rio de Janeiro, o Web Summit chega à quarta edição no próximo mês de junho com previsão de reunir mais de 35 mil participantes de 100 países. O acordo firmado entre a organização e a prefeitura da cidade projeta cerca de R$ 1,8 bilhão de impacto acumulado para o município até 2030. Criado em Dublin, na Irlanda, em 2009, o evento é um grande palco para startups e empreendedores se conectarem ao ecossistema global de investidores.

No interior também tem

O HackTown é realizado desde 2016 na simpática Santa Rita do Sapucaí, no sul de Minas Gerais

Ao contrário do que se pode imaginar, os festivais não estão apenas nos grandes centros urbanos. Um dos casos mais interessantes do Brasil é o HackTown, realizado desde 2016 na simpática Santa Rita do Sapucaí, no sul de Minas. Os cofundadores Carlos Henrique Vilela e João Rubens Costa costumam dizer que o evento é o SXSW brasileiro. E, de fato, é o que mais remete à experiência de Austin, com ativações e palcos espalhados pela cidade, que chega a triplicar sua população durante o acontecimento. Por lá, você vive integralmente a dinâmica do festival , com menos estímulos disputando a atenção do que em uma metrópole.

Outro exemplo da força desse mercado é o Gramado Summit, que acontece desde 2017, na serra gaúcha. A edição deste ano, encerrada na semana passada, reuniu mais de 23 mil participantes, além de centenas de palestrantes, startups e grandes empresas. A programação abordou temas como inteligência artificial, varejo e futuro do trabalho, reforçando o papel desses festivais como espaços de conteúdo e geração de negócios.

Do multicultural HackaTUDO Amazônia ao qualificado Festival do Clube, em São Paulo, os eventos de inovação refletem um Brasil que pulsa criatividade, resiliência e potência econômica e cultural. Geram negócios e impacto. Fomentam o empreendedorismo e escalam soluções sustentáveis. Conectam pessoas e alimentam ideias. O desafio que se coloca é fazer tudo isso sem perder de vista problemas estruturais do Brasil, distantes das ativações de marcas e das salas de palestras com ar-condicionado.