Big Techs fecham acordo com Pentágono para levar IA a redes secretas de guerra

Documento do governo dos EUA autoriza oito big techs a operar inteligência artificial em redes militares classificadas; acordo exclui a Anthropic, que pediu veto a armas autônomas e vigilância doméstica em massa

Por: Diego Feijó de Abreu/ Revista Forum

Publicado: 06/05/2026

Pentágono oficializou a entrada de gigantes da tecnologia em suas redes militares ultrassecretas. Em um acordo anunciado em 1º de maio, o governo dos Estados Unidos autorizou Google, OpenAI, Microsoft, Amazon Web Services (AWS), Nvidia, SpaceX, Oracle e Reflection a instalarem ferramentas de inteligência artificial (IA) em ambientes classificados de guerra e espionagem. A medida inédita insere tecnologias de uso civil cotidiano diretamente no núcleo operacional das Forças Armadas norte-americanas, consolidando a transição militar para uma estrutura de combate “AI-first”.

A informação é confirmada pelo comunicado oficial do Departamento de Defesa. O ponto de inflexão não é apenas a contratação de tecnologia pelo Estado militar, mas a inserção de modelos civis, utilizados por estudantes, trabalhadores e governos,  em redes onde o escrutínio público é praticamente inexistente.

Segundo o documento, as empresas operarão nos seguintes níveis de segurança:

  • Impact Level 6 e 7: Categorias de segurança máxima destinadas a dados secretos e informações de inteligência altamente restritas.

O Pentágono sustenta que a integração vai acelerar a síntese de dados, ampliar a compreensão situacional e apoiar decisões militares em cenários operacionais complexos.

Plataforma GenAI.mil, sistema oficial de IA generativa do órgão, já revela o tamanho da operação: foi utilizada por mais de 1,3 milhão de pessoas em apenas cinco meses. Militares, servidores civis e contratados do governo geraram dezenas de milhões de comandos e implantaram centenas de milhares de agentes de IA nesse período.

Na prática, o acordo embute as big techs na arquitetura digital de guerra dos Estados Unidos. A tecnologia passa a ser aplicada de forma orgânica em:

  • Inteligência e espionagem;
  • Planejamento operacional e logística;
  • Ciberoperações e análise massiva de dados.

Para evitar a dependência de um único fornecedor, o Pentágono adotou uma arquitetura multivendor. Com várias empresas operando sob parâmetros semelhantes, o Estado militar reduz o poder de barganha individual de cada companhia, garantindo a capacidade de substituir fornecedoras em caso de resistência contratual. E é neste ponto que a Anthropic, desenvolvedora do modelo Claude, entra no centro do debate.

O veto à Anthropic e a disputa pelos limites éticos

A Anthropic é a grande ausência na lista das oito empresas aprovadas. Em fevereiro, o CEO Dario Amodei afirmou que a companhia aceitaria fornecer IA ao Pentágono, mas exigiu a manutenção de duas linhas vermelhas contratuais: a proibição do uso do Claude em vigilância doméstica em massa e em armas totalmente autônomas. Que foi anunciada pela Fórum Pentágono ameaça banir Anthropic e abre caminho para IA de Elon Musk

A resposta de Washington foi dura. O governo dos EUA exigiu acesso irrestrito para “qualquer uso lícito” e ameaçou classificar a empresa como um “risco à cadeia de suprimentos” caso as limitações éticas fossem mantidas. Em março, após receber uma carta confirmando essa designação, a companhia anunciou que contestaria a medida na Justiça.

O embate revela o verdadeiro núcleo político do acordo. A questão central transcende qual chatbot será utilizado pelos militares; trata-se de definir quem detém o poder de estabelecer os limites de um modelo de IA de fronteira: a empresa desenvolvedora, o Estado contratante ou a sociedade civil. Ao excluir a Anthropic, o Pentágono sinaliza que a cláusula de uso irrestrito tornou-se o novo padrão da indústria militar.

O retorno do Google após o trauma do Project Maven

O caso do Google ilustra a mudança de paradigma do setor. Em 2018, sob forte pressão de seus funcionários, a empresa publicou princípios éticos garantindo que não desenvolveria tecnologias voltadas para causar ferimentos, tampouco ferramentas de vigilância que violassem direitos humanos. A crise interna havia sido deflagrada pelo Project Maven, um programa do Pentágono para análise de imagens de drones.

Em fevereiro de 2025, o Google reescreveu seus princípios. A nova diretriz foca em inovação ousada e desenvolvimento responsável, mas removeu do centro do documento público a lista explícita de aplicações militares que não perseguiria.

O retorno do Google aos contratos militares evidencia que a resistência ética interna das big techs sucumbiu diante da corrida trilionária por infraestrutura de nuvem, data centers e status geopolítico. A própria Revista Fórum já demonstrou como esse lobby atua pesadamente no Brasil para influenciar o marco regulatório da inteligência artificial.

O circuito fechado entre Wall Street, Big Techs e Defesa

Esta corrida armamentista digital ocorre simultaneamente às apostas maciças de Wall Street na infraestrutura de IA. Recentemente, os CEOs do JPMorgan e da BlackRock rechaçaram os rumores de uma “bolha” no setor, argumentando que a demanda por data centers, energia e semicondutores está longe do pico.

Ao fornecer IA para redes militares classificadas, uma empresa deixa de ser apenas uma desenvolvedora de software corporativo e ascende ao status de infraestrutura crítica de segurança nacional. Em eventuais crises financeiras, essa posição garante proteção política e acesso blindado a fundos públicos.

No Brasil, a Fórum tem acompanhado o impacto dessa infraestrutura física com o apagão de dados públicos sobre data centers e o avanço do colonialismo digital. Sem essa base material (energia, chips e servidores), não há inteligência artificial operando em escala militar.

Contraste geopolítico: o Brasil foca nas plataformas, os EUA na guerra

A movimentação do Pentágono contrasta frontalmente com a agenda brasileira, pautada pelo ECA Digital e por novas diretrizes do Ministério da Justiça, que passaram a auditar o risco dos algoritmos de recomendação e a interatividade digital. O Brasil reconhece que o risco não reside apenas no conteúdo, mas na infraestrutura cognitiva que organiza o comportamento.

Este debate tem ganhado tração nos mais altos níveis de governo. A Fórum noticiou recentemente que o presidente Lula criticou o monopólio das big techs, definindo a IA como parte de uma “complexa estrutura de poder”, e indicou que o Executivo pretende avançar na responsabilização das plataformas.

O fim da fronteira entre o uso civil e militar

O legado mais profundo e silencioso do acordo de 1º de maio é o apagamento definitivo da fronteira entre o uso civil e o militar da tecnologia. Diferente de um caça ou de um míssil, os modelos de linguagem que agora operam em redes secretas de espionagem são os mesmos que auxiliam estudantes, redigem contratos e mediam o acesso à informação pública no dia a dia.

Quando a mesma infraestrutura atende a usuários comuns e a operações de guerra, a linha divisória deixa de ser técnica para se tornar meramente contratual. Contratos estes firmados em ambientes sigilosos, blindados sob o manto da segurança nacional.

Enquanto o Pentágono busca “superioridade decisória” em todos os dominios de guerra e as big techs consolidam seu credenciamento político, a sociedade civil permanece no escuro, utilizando ferramentas cotidianas sem saber quais limites éticos foram sacrificados para que elas pudessem cruzar os portões das redes classificadas do Estado militar.

Fonte: https://revistaforum.com.br/tecnologia/big-techs-pentagono-ia-guerra